Como propiciar uma infância sustentável

Como propiciar uma infância sustentável

Minha filha mais velha, de três anos e meio, possui uma facilidade imensa em descartar brinquedos quebrados no lixo. E tem dificuldade de entender quando a questiono sobre o assunto. Explicar o impacto da geração inconsciente de lixo não é algo compreensível para uma criança da sua idade, acostumada a ver a lixeira de descartáveis sempre transbordando de embalagens. Ela entende, com o meu exemplo, que é fácil descartar, o que me incomoda. Por isso, tenho passado um certo trabalho com questões como: o que significa ser sustentável? Como essa condição pode prejudicar ou melhorar a vida dos nossos filhos e de que forma se opera a mudança de hábitos? Não há respostas fáceis, tampouco um guia de boas práticas definido.

O conceito de sustentabilidade tem ganhado significações mais complexas e profundas, incluindo pautas que vão além da concepção tradicional, restrita à relação entre consumo e meio ambiente. Cultura, inclusão, diversidade, política e educação são alguns dos tópicos que têm integrado os debates internacionais sobre o futuro do planeta e de seus habitantes.

À medida que o problema ganha relevância globalmente, cresce também a necessidade de incorporá-lo ao processo de educação das crianças, de modo que sejam criadas as bases para um futuro sustentável. Tarefa essa bastante delicada. Não basta oferecer oficinas pontuais nas escolas, plantando árvores e aprendendo a separar o lixo. Em casa, no dia a dia, se apresentam inúmeras oportunidades para contribuir na formação de nossos filhos, de modo que passem a interagir com o mundo ao redor, desde cedo, sem causar danos e desequilíbrios.

O grande desafio está em percebê-las, identificá-las e incorporá-las de forma plena e fluida. Por meio do compartilhamento de experiências e responsabilidades e da participação direta na gestão doméstica, as crianças podem explorar, aprender e mesmo criar soluções para uma vida mais harmônica. Com bons exemplos, sua capacidade para desenvolver a criatividade e as habilidades de pensamento crítico necessárias para tomar decisões informadas para a mudança é potencializada, melhorando a qualidade de suas vidas e, consequentemente, de gerações futuras.

Presente para o futuro é uma tentativa de explorar os caminhos possíveis para o exercício de uma parentalidade sustentável, focada na formação de crianças mais empáticas e preocupadas com a vida coletiva no presente e no futuro.
 

Educar para ser mais

 

As crianças refletem, em grande medida, o comportamento dos adultos com os quais elas convivem. Quando falamos em educar nossos filhos para ocupar seu espaço no mundo de forma sustentável, estamos assumindo um compromisso, pois só a nossa ação pode inspirar e criar consciência nos pequenos.

Apesar da voga do tema da sustentabilidade, as gerações que já alcançaram idade para ter filhos ainda são, na maioria dos casos, pouco sensíveis a questões como o consumismo, o machismo e o preconceito em diferentes níveis. Ainda que já integrem nosso repertório de preocupações e nosso discurso, não servem de guia para nossas ações cotidianas: compras no supermercado, relações de trabalho e pessoais, exercício da cidadania através da participação política, entre outras questões pertinentes à construção de uma existência harmônica.

Seguimos consumindo produtos de empresas que não se responsabilizam por suas embalagens, aceitando (se não fazendo) piadas preconceituosas, nos afastando de nossas responsabilidades políticas, hierarquizando as relações a partir de critérios históricos, culturais e econômicos que reproduzem a desigualdade, optando pelo conforto de assistir e reproduzir histórias iguais às nossas, perpetrando pequenos crimes de conduta no cotidiano.

Esses são alguns traços que, infelizmente, constituem nosso estar no mundo, repercutindo diretamente no comportamento de nossos filhos. A educação familiar deve ser, me parece, um processo de crescimento conjunto. Nós, adultos, pais e mães, somos também alunos nesse processo colaborativo.

 

Educação pela experiência

 

Mas o que fazer? Ordem e proibição não resolvem. O exercício de uma autoridade injustificada, excluindo as crianças do processo de tomada decisão pode enfraquecer o potencial de participação de nossos filhos na construção de uma cultura democrática.

É preciso apresentar-lhes diversidade e dedicação ao cuidado com a natureza. Das pessoas que frequentam nossa casa à nossa relação com o lixo, das histórias que costumamos ler ou criar, bem como as características das bonecas, princesas e heróis aos quais expomos nossos filhos e a relação que cultivamos com bens materiais: tudo é parte da construção de padrões que ajudam a informar as impressões que cada criança tem sobre o mundo.

Em suma, trazer filhos ao mundo é um estímulo para nos tornarmos pessoas melhores, para abrirmos nossa percepção e aceitarmos nossas imperfeições como pontos de passagem, nunca como bagagem a ser carregada. O aprendizado deve ser diverso. Devemos buscar diversidade. Que conexões temos feito, por exemplo, com comunidades indígenas que defendem uma conexão mais profunda com a terra e a natureza? O quanto nos permitimos aprender com pessoas que conhecem na pele o significado do desrespeito? Uma educação familiar sustentável depende da nossa disposição para sair da bolha, desfazer hierarquias e aprender de forma livre com exemplos, de forma comunitária.

Não me vejo como um exemplo, estou longe disso. E Presente para o futuro é um presente que me foi dado. Um convite para encontrar pessoas que, em alguma medida, podem nos ajudar nesse processo. Nas cenas dos próximos capítulos, veremos casos inspiradores de mães, pais, filhos, pessoas, enfim, que conseguem agir de forma harmônica e sustentável, ajudando a despertar a consciência de crianças ao seu redor.

Se você tem algo nesse sentido para compartilhar, por favor, junte-se a nós. Presente para o futuro é um programa que, como o canal que o acolhe, tem na sua essência o ideal da colaboração.

Marcelo Téo
marcelo@retrato.site
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