Os misteriosos poderes da espiritualidade e da maternidade

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Os misteriosos poderes da espiritualidade e da maternidade

Velas, incensos, mantras. Não posso negar que a estética da espiritualidade oriental me encanta. Se tem dois personagens que Yael conhece desde suas primeiras palavras é Frida Kahlo (sobre Frida falaremos mais tarde, em outra coluna) e Buda. Minha casa tem Budas por todos os lados. Budas que comprei em viagens, Budas que também ganhei de amigos que se lembraram de mim em viagens mundo afora.

Temo que muitas vezes a espiritualidade fique apenas na estética para essa nossa geração X Z Y: haribol, namastê, gratidão, abraça-árvore, yoga poses. Virou bonito ser espiritual. Que bom. Porque tem um lado bom nisso: uma busca por um “eu” mais legal pro mundo, sem dúvida. Por outro lado, vejo disseminada uma falsa gentileza recheada de cinismo que sempre me incomodou. É quando a estética acaba virando uma escola que separa grupos mais pretensamente iluminados que outros. Não acredito em grupos, tampouco em movimentos. Para mim, a espiritualidade é individual, amoral e indivisível.

A maternidade me trouxe o pé na realidade que me permitiu alcançar os céus. Minha busca de uma vida inteira foi iluminada pelo mistério que é gerar uma vida dentro de mim mesma.
 

A evolução da espiritualidade, de filha a mãe

 
Desde menina, histórias místicas e bíblicas me encantam. Quando criança, eu pedia por essas histórias para dormir. Aos 14 anos, quase sem querer, fui parar num ashram em Nova York, de uma famosa guru que vive até hoje na ponte Índia-EUA. Aos 21, conheci a Umbanda, um caminho de devoção e contato com o mistério que abriu as portas da minha percepção para uma realidade invisível aos olhos. Aos 24, o contato definitivo com o ayurveda me levou à prática do ioga e do vegetarianismo. Com a primeira gravidez, deixei o vegetarianismo de lado, mas já estava grudada em mim uma soma de aprendizados e revelações que me prepararam para chegar à maternidade. E para o maior mistério que eu iria viver.

Todas as sombras do meu passado resolveram emergir no período da gestação. Eu estava incomodada. Desde minha primeira semana grávida, eu sentia que minha alma habitava um corpo que eu não conhecia. Mesmo eu tendo já buscado tanto. Mesmo eu me achando espiritual. Eu tinha 31 anos.

A primeira coisa que eu fiz ao receber o resultado positivo da gravidez, foi correr para visitar (junto com meu marido) meu médico ayurvédico que já me acompanhava há anos. Ele me explicou em termos espirituais o que queria dizer uma gravidez; do ponto de vista do casamento, ele explicou tudo o que iria mudar ao sairmos de um casal de namorados para a constituição de uma família. Do ponto de vista físico, de dois em dois meses até Yael nascer, recebi massagens terapêuticas com o objetivo de preparar meu corpo para o ser que ia chegar.
 

O incomodo não passou

 
Eu era assombrada por pensamentos ruins, uma sensação de perda de controle. Como eu poderia estar sentindo isso sendo “tão espiritual”? Parecia que tudo estava errado.

Meu corpo ia se transformando e todos os meus lixos, que eu escondi durante toda a vida, iam vindo à tona. Relações ruins com a família, relações equivocadas com o mundo, relações desencontradas comigo mesma. Foi muito intenso. Esse relato poderia ser de um peregrino rumo à iluminação nos Himalaias. Mas era eu ali, vivendo a tormenta para iluminar a minha vida, em um momento que eu sempre imaginei que seria lindo. Mas não foi.

Eu sabia que para viver plena a maternidade eu precisaria limpar esse lixo. Fui então para terapia floral, que eu conhecia há pelo menos um ano. A intenção era limpar meu DNA de condicionamentos familiares que não me serviam mais. Minha terapeuta me acompanhou durante toda a gestação, limpando casa por casa dos mapas da minha vida.

Eu precisava me organizar internamente. Fui também para a Constelação Familiar. Eu já estava de três meses. Botei em ordem algumas coisas, joguei fora tantas outras. Mas isso também não foi suficiente.

Meu mestre cabalista me contou que esse era o momento certo para a maternidade. Minha astróloga me acompanhava mês a mês falando sobre meus trânsitos e posições planetárias. Minha terapeuta de sonhos apontou alguns problemas importantes com meu pai. Nesse momento, me indicaram uma psicanalista junguiana, que virou uma das pessoas mais queridas da minha vida até hoje. Semana a semana, Bete me ajudou a tocar em todas as feridas passadas que eu tinha vivido e que ainda teimavam em não cicatrizar.

Seguimos juntas até o fim da gestação. Fui ponto a ponto chorando e entendendo meus processos que tinham ficado para trás sem elaboração e sem entendimento. Tudo aquilo que fica para trás sem resposta vai virando entulho emocional. O peso e o preço que pagamos por isso é a conta da farmácia mais tarde. Fui entendendo, então, como funcionava minha alma, minha mente e meu corpo. Tendo coragem de responder com atenção a todos os acontecimentos da minha vida. Para não deixar mais nada passar, não empurrar mais nada pra baixo do pano. Todas essas terapias me ensinaram que eu não posso deixar para amanhã o que precisa ser feito agora. Nunca. Esse é o aprendizado.

Com a gravidez e o corte da cesárea, uma morte de quem eu era se processou em mim – como eu havia mencionado para você no texto da coluna anterior. Toda a Petria que foi gestada durante os nove meses também nasceu com a Yael. Doeu. E eu chorei. Mas eu chorava também de alegria. Porque sabia que começava uma vida verdadeiramente nova. Era isso o que eu buscava. Era isso o que eu sempre busquei. Um porto seguro dentro de mim mesma, sem história, passado a limpo.

Conto tudo isso para dizer para você que meu caminho espiritual foi e continua sendo um norte em minha vida. Mas é algo mais calcado no real. É a busca por uma ética do ser, por um exercício constante de estar atenta e presente. Meus Budas e meu mapa astral são apenas alegorias estéticas que me lembram de algo muito mais importante: a busca por essa presença. Me conhecer em minhas qualidades e meus medos foi a ferramenta mais poderosa para eu me sentir mais forte, feliz e corajosa para encarar a vida. Não importa o Buda, o que importa é a prática dessa atenção todos os dias.

Era esse o caminho que eu precisava percorrer para poder ensinar aos meus filhos a única espiritualidade que acredito ser possível hoje: a harmonização dos nossos corpos para podermos viver a realidade com o máximo de potência e atenção no presente. Isso traz mais felicidade, mais devoção, mais resultados profissionais positivos, mais harmonia nas relações. Porque a gente descobre que, na verdade, tudo é espiritual. A vida já é misteriosa o bastante. E eu… eu não preciso ir para nenhum lugar que não seja aqui, agora, na coragem para viver o que o presente exige de mim.

Petria Chaves
petriachaves@gmail.com
3 Comentários
  • Ilze Maeda
    Postado às: 07:21h, 01 maio Responder

    Amei! Parabéns pela coluna, parabéns principalmente pelo conhecimento. O bom carácter, o eu de si mesmo sendo vivido em plenitude. Isso sim é espiritualidade. Religioes, filosofias são apenas um meio para tal fim. O único fim importante da vida. Beijo grande. Aguardo ansiosa a próxima!

  • Isaura Ferreira
    Postado às: 22:32h, 01 maio Responder

    É bastante complexo. Você considera que são muitos conflitos internos ou com o mundo exterior? Quando você se deu conta da necessidade dessa busca?

    • Petria Chaves
      Postado às: 12:59h, 17 maio Responder

      desde sempre me dei conta disso. acho que os conflitos externos só refletem os internos. o mundo é assim pq eu sou assim.

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