Cura do feminino de mãe para filha e de filha para mãe

Cura do feminino de mãe para filha e de filha para mãe

A culinarista Bruna Hey morava em Florianópolis, tinha um restaurante vegetariano e praticava ioga há anos quando engravidou. Sentia-se “cheia de travas com o feminino”, não via beleza em si e não tinha acesso a processos de cura que hoje estão mais disseminados. O então companheiro, Eduardo Marques, ia e vinha da ilha de Bali, na Indonésia, onde trabalhava como guia de surfe. Assim que a filha Maitê, nascida em casa, completou três meses, a família se mudou para lá. Apenas saindo do puerpério, Bruna viveu do outro lado do mundo, sem falar a língua local, a transição de “mulher menina”, que dedica todo o tempo às suas atividades, para “mulher mãe”, que foca a atenção em outro ser. Sua autoestima e confiança foram profundamente abaladas com a chegada da maternidade. Mas foi justo aí que o processo de empoderamento feminino de Bruna começou.

Kadec e Maitê em Bali, na Indonésia.Bruna recebeu muito apoio de uma mulher chamada Kadec, que considera sua irmã balinesa. Ela cuidou de Maitê, que até hoje lembra como era ninada, e apresentou a Bruna a cultura local, inclusive a gastronômica. “Em Bali, o costume é fazer tudo em casa, até o óleo e o leite de coco. Às vezes, eu achava que precisava ir ao mercado, mas a Kadec olhava e, com três ingredientes, cozinhava algo maravilhoso.”

O acolhimento continuou nos três anos em que permaneceu na Ásia. Em uma viagem para o Nepal e o Tibete, Bruna conta que Maitê, então com sete meses, atraiu muitas bênçãos. “Nas montanhas, houve momentos de pegarmos -25° e ela estar 100% bem. Todo mundo colocando aqueles lenços brancos tibetanos ao redor do pescoço dela. E eu sentindo minha intuição se ampliar.”

Na volta para o Brasil, quando se separou, Bruna fez uma amizade que acabou aprofundando seu processo de cura do feminino. Ficou e é amiga até hoje da terapeuta Morena Cardoso, criadora do método Danza Medicina, que utiliza conhecimentos ancestrais para curar as dores de mulheres contemporâneas. “Quando nos encontramos, conversamos por, sei lá, seis horas direto. Trocamos muito. E não são apenas trocas agradáveis. Olhamos para as nossas sombras e vivenciamos os momentos difíceis. Mas sempre para crescer.”

 

Trocando ensinamentos femininos com a filha

 
Faz um ano que a culinarista Bruna Hey começou a plantar sua lua, ou seja, recolher o sangue menstrual e despejá-lo na terra, um antigo ritual* que tem sido resgatado e utilizado por muitas mulheres em processos de cura do feminino. Ela conta que a prática favoreceu o florescer do amor, da beleza e da abundância em sua vida. Por isso, decidiu compartilhar esse aprendizado com a filha, Maitê, de sete anos. No primeiro dia, a pequena estranhou, achou ruim o cheiro do sangue. “Eu a deixei livre, mas ela continuou a me acompanhar e hoje gosta muito, diz que o sangue é sagrado e secreto”, relata a mãe orgulhosa.

Prato com sementes e frutas.Durante 15 anos, Bruna tomou anticoncepcional. Iniciou por orientação dos pais, que são médicos e buscavam oferecer o melhor que podiam à filha. Mas, em um determinado momento, a culinarista percebeu-se muito desconectada dos ciclos do seu corpo, amortecidos pelos hormônios. Desde que parou de tomar pílula, e principalmente desde que começou a plantar sua lua, Bruna diz que passou a sentir a natureza feminina cíclica, com suas diferentes fases ao longo do mês. “Isso me trouxe vários benefícios, como o respeito aos momentos em que preciso de recolhimento e a expansão da potência criativa que coloco no meu trabalho. Por isso, quero que a Maitê já cresça mais conectada consigo.”

Esse desabrochar da criatividade, combinado a uma herança balinesa, está expresso nos pratos que a culinarista cria, com ingredientes coletados na natureza ao redor, muitas vezes com a ajuda da filha. “Me apaixonei especialmente por folhas. Não posso ver uma bonita que quero pegar para usar.”

E, assim como Bruna busca repassar para a filha seus aprendizados do feminino, a menina faz o mesmo com a mãe, intuitivamente. Maitê é bastante vaidosa e sempre incentiva Bruna a cuidar-se, arrumar-se, gostar-se. “Antes da maternidade, eu não via beleza em mim”, revela Bruna, que, na sessão de fotos desta reportagem, exalou encanto e autoconfiança.

Bruna Hey.

Hoje em dia, Bruna mantém uma rotina de autocuidado para o equilíbrio das energias feminina e masculina dentro de si. A alimentação saudável, a prática de iyengar ioga e o plantio da lua estão entre suas práticas. Além disso, semanalmente, participa de sessões de cura, com theta healing, massagem, constelação familiar, temascal (tenda do suor) e outros rituais xamânicos.

A descoberta de si parece ter dado a Bruna uma clareza imensa sobre o seu lugar no mundo. Uma busca que é sua, particular, mas que também é de todas nós. Cada mapa compartilhado por mulheres potentes e dedicadas como ela nos fornece partes do que poderíamos chamar de uma “geografia do feminino”. Estudá-la, conhecê-la, praticá-la e compartilhá-la: eis a busca de FlorEla.

* Se utilizar um coletor menstrual, armazene o sangue do ciclo todo em um vidro vedado. Se preferir absorventes ecológicos, deixe-os de molho em um recipiente com água pura. Seja qual for a opção, despeje o líquido na terra – pode ser diretamente no solo ou em um vaso. (Orientações do site Danza Medicina)

Fotos: Cris Fontinha e Eduardo Marques (Arquivo pessoal).

Anita Martins
anita@retrato.site
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