Tudo posso. Mas do que eu realmente preciso para ser feliz?

Tudo posso. Mas do que eu realmente preciso para ser feliz?

Nunca consegui idealizar ou planejar minha vida por mais do que uma semana. Aquelas perguntas de RH: “O que você quer ser daqui a cinco anos?” nunca funcionaram para mim. Eu mal sei o que desejo ser agora, quem dirá daqui a tanto tempo.

Esse mistério da vida me encanta. Não saber onde estarei daqui cinco anos. Porque a vida é tão mágica que, de verdade, não me faz sentido querer planejar. Por outro lado, quando temos filhos, adquirimos a urgência de guardar dinheiro e fazer uma poupança. Eu e meu marido fizemos e guardamos, mas ainda estamos construindo o imaginário do que esperamos de nossa vida mais pra frente.

Dessa mesma forma, nunca pensei ou esquematizei o que eu quero da minha maternidade. Filhos “Waldorf” ou filhos “Harvard”? Ou os dois? O que eu realmente quero para meus filhos é uma vida potente e ética. Uma vida construída na verdade, de maneira a verdade seja sempre a melhor escolha pra eles. Aprender a se reconhecer, se aceitar e se gostar. Toda a riqueza virá daí. Material e espiritual.

Ficou difícil, hein? Como viver em tanta subjetividade?

Percebi que, nos últimos anos, nossas escolhas como família têm sido cada vez mais embasadas nessa subjetividade: o que de verdade me faz feliz? E o que de verdade me afasta de mim?

Vejo casais e famílias desesperados para viajar nas férias, para sair do ambiente onde vivem e convivem diariamente. Isso nunca foi uma prioridade para nós como família. Viajar pode até ser o palco de algumas vivências, já viajamos bastante. Mas essa não é a condição para que a gente possa viver a alegria do espanto que é estarmos juntos. Onde quer que eu esteja, estarei comigo e estarei de férias. Não planejamos o consumo do tempo em outro lugar que não seja aqui e agora.

Isso tem a ver também com a escolha que fizemos de onde morar. Quando Yael entrou na escola, percebemos que queríamos uma vida de pertencimento na cidade. Andar a pé, curtir nosso bairro, ter aquela sensação de liberdade ao se caminhar pelas ruas. Decidimos, então, mudar para pertinho de onde ela estuda. Agora, é só atravessar a rua. Nosso bairro é uma bolha, talvez seja um dos bairros mais caros de São Paulo. A escolha dessa mudança foi milimetricamente estudada, em seus prós e contras. No saldo dessa conta, vimos que isso nos traria mais simplicidade. E a simplicidade nos aproxima do que nos faz feliz.

A escolha da escola dela também foi elaborada em função disso, desse pertencimento, desse descomplicar. Yael estuda dentro de um clube. Queríamos espaço livre e verde para que ela pudesse aprender a alegria que é reconhecer um grande espaço como seu. O clube virou a minicidade dela. E nossa alegria é sentir que vivemos um microcosmo dentro da cidade. Não dá vontade de sair da nossa vida.

Foto: Arquivo pessoal

Vendemos nosso carro. Ao mudar para um local onde se faz tudo a pé, da escola ao supermercado e à academia, não fazia mais sentido manter um veículo só para se dizer que tem. Hoje, gastamos muito menos e temos muito mais liberdade e prazer no ir e vir. Se precisamos ir mais longe, alugamos um carro. Se temos algum compromisso nos arredores, fazemos à pé ou de táxi. A mobilidade em uma cidade como São Paulo é insuportável. A modernidade e a tecnologia de aplicativos nos dá uma comodidade hoje que nenhum morador de grande cidade tinha no passado, por isso fazia tanto sentido ter carro. Hoje, não.

Isso é inclusive uma tendência mundial. Uma pesquisa da Global Automotive Consumer da Deloitte mapeou jovens de 17 países. O estudo já aponta que a maioria das pessoas com idade em torno dos 25-30 anos se questiona entre a compra de um carro ou apenas o uso de aplicativos para se deslocar na cidade. Tendência na China, Índia e nos Estados Unidos.

Sinto que estar plugada com as nossas reais necessidades é também estar plugada com o que o mundo precisa. Com a vanguarda. Não quero lecionar para Yael e Max sobre sustentabilidade. Acho chatérrimo e mudo de canal quando alguém fala essa palavra. Sustentar um modelo de vida que me faz feliz tem muito mais sentido para mim. E quando digo “feliz”, estou falando sobre algo muito sensível e importante. Algo muito trabalhado para se chegar num ponto essencial e profundo para mim e dentro de mim. Diz respeito à minha liberdade e à minha potência de vida. Não é algo que diz respeito apenas ao meu prazer momentâneo, do que visto, do que como ou do que aparento ter. É algo que realmente me ajuda a ter os pés no chão e a certeza de que estou vivendo a minha história. Se me escraviza, não pode me fazer feliz.

Eu posso tudo, mas do que eu preciso?

 

Consumir não precisa ser o fim. Pode ser a ponte pra gente descobrir que uma vida mais legal não precisa do consumo de coisas para encobrir o que está chato ou monótono. E acho que essa vida se resume mesmo a aprender a fazer as escolhas corretas. Não sei se estarei tão afiada nessas escolhas daqui a cinco anos, mas sei que tenho a vida inteira para aprender a chegar mais perto desse ser mais essencial.

Foto: Anna Boga (capa)

Petria Chaves
petriachaves@gmail.com
8 Comentários
  • Ana Carol
    Postado às: 14:35h, 17 maio Responder

    Amei <3

  • Lilian
    Postado às: 15:51h, 17 maio Responder

    Gostei do texto. A vida é feita de escolhas . Mas nem sempre as escolhas que queremos nos são possíveis . Bancar um estilo de vida, financeiramente falando , como esse é muito caro. Morar bem traz condições de ter este estilo de vida, mas é para poucos, infelizmente.

  • Júlia
    Postado às: 21:28h, 17 maio Responder

    Muito lindo o texto! Eu também não planejo muito e sigo o caminho que vai se abrindo na minha frente. É claro que os caminhos que se abrem são consequência de escolhas que fazemos né? E estar consciente dessas escolhas, estar presente nesse caminho, é maravilhoso!

  • Gio
    Postado às: 08:15h, 18 maio Responder

    Amei Petria! ❤️

  • IVANILDA MOREIRA SERAFIM
    Postado às: 15:09h, 22 maio Responder

    Vc. é show. Sabe o que quer par vc e família. Amei ler o seu texto. Parabéns Petria Chaves.

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