A alma das cores: o sonho de um mundo colorido naturalmente

A alma das cores: o sonho de um mundo colorido naturalmente

O tema de “Presente para o futuro” desta semana foi, mais uma vez, uma surpresa agradável: falar sobre cores, mais especificamente sobre corantes naturais, com alguém que entende e se importa com o assunto. Passei anos da minha vida dedicado a pesquisas de história da arte na academia. E a cor sempre foi um tema do meu maior interesse, o que intensificou meu envolvimento com o que Isadora Rubim, 32 anos, mãe de Luisa, oito anos, e fundadora da Âme, tinha para compartilhar.

Tecidos tingidos com corantes naturais. Foto: Cris Fontinha.Em fase de gestação, a Âme tem o objetivo de produzir, disseminar e discutir o uso de corantes naturais feitos a partir de plantas, árvores e suas cascas, sementes, frutos, folhas, raízes e resíduos orgânicos, oferecendo oficinas e produtos voltados, sobretudo, aos públicos feminino e infantil.

Inspirada por uma entrevista com a estilista Flávia Aranha, Isadora sentiu-se intimada a questionar a origem das gamas de cores que coloriam sua vida. Logo percebeu que estava cercada de materiais sintéticos, de fabricação mais barata e escalável, porém altamente tóxicos, poluentes e bioacumulativos (podem ficar retidos no organismo humano). Essa era a situação em sua casa, suas roupas, seus objetos de uso pessoal, tudo.

Foi quando decidiu pesquisar a fundo soluções alternativas para uma vida colorida de forma natural. Seu interesse profundo e apaixonado levou-a a trabalhar ao lado de Eber Lopes Ferreira, autor do Livro “Corantes Naturais da Flora Brasileira” e fundador da Etno Botânica, empresa que desenvolve tecnologias e produtos sustentáveis ligados à atividade artesanal e ao uso de corantes naturais.

Lá pôde conhecer de perto os processos que envolvem a produção de corantes naturais. E não apenas do ponto de vista técnico, mas também politico, ideológico, mercadológico. Isadora acabou fazendo formações na Couleur Garance, associação francesa que é referência mundial no estudo das cores vegetais, e na Associazione Colore e Tintura Naturale Maria Elda Salice, na Itália.

Corantes sintéticos x corantes naturais

 

O caminho trilhado por Isadora lhe permitiu conhecer mais profundamente o impacto da fabricação de corantes sintéticos, cujas principais matérias-primas derivam do petróleo. Teve acesso a informações científicas sobre o processo que envolve sua produção. Para cada quilo de corante sintético, são contaminados cerca de 8 mil litros de água. Além dos diversos impactos ambientais durante a produção, a utilização pela indústria têxtil também é danosa. Os efeitos se estendem aos trabalhadores e aos consumidores, causando alergias e mesmo doenças fatais, como o câncer.

No Japão, estatísticas mostram que trabalhadores de indústrias que manipulam corantes sintéticos apresentam maior risco no desenvolvimento de tumores. Nos Estados Unidos, um estudo das causas de morte entre os trabalhadores de fábricas de corantes comprovou que estes desenvolveram vários tipos de câncer, doenças cerebrovasculares e doenças pulmonares em quantidade 40 vezes maior que a população em geral. Leia mais aqui.

As cores naturais, pela sua origem viva, podem oferecer uma escala cromática riquíssima, além de possuir um ciclo sustentável, sem gerar resíduos tóxicos no processo de produção e tingimento. Não geram e nem contêm em sua composição produtos químicos nocivos à saúde. Algumas matérias-primas ainda apresentam propriedades fitoterápicas. São obtidas a partir de recursos renováveis, a grande maioria de origem vegetal e alguns poucos de origem animal. Todos biodegradáveis.

A história na cor

 

Embora o impacto ambiental positivo da utilização de corantes vegetais seja, por si só, suficiente para justificá-la, a história não para por aí. As matérias-primas são plantas tintoriais utilizadas há séculos pelos povos e pelas culturas mais antigas de nossa história material. São práticas que, mesmo alteradas, conectam-se com uma essência ancestral que pode nos ajudar a encontrar um caminho, ou melhor, um desvio dos rumos que o mundo está tomando.

Essas cores carregam, em si, memória – como gosta de frisar a estilista Flávia Aranha. Mais do que incrementar um repertório de cores com tons naturais, o grande valor do sonho de Isadora é a conscientização acerca da origem e do destino das coisas que consumimos. De onde vêm seus insumos (pré-produção)? Como são feitas (produção)? Quais os cuidados no embalo e na distribuição para evitar o desperdício (distribuição)? Quais efeitos estamos causando ao usá-las (utilização)? Qual o impacto do descarte (quando há) de cada produto que entra em nossas casas (eliminação)?*

* 5 Critérios que compõem a Análise do Ciclo de Vida, ferramenta dedicada a desenvolver uma avaliação sistêmica das consequências socioambientais associadas a vida de um produto.

Pra onde isso nos leva?

 

Vivemos em um país que, pela descendência portuguesa e pela trajetória escravocrata, historicamente deprecia o trabalho manual. Na contemporaneidade, um conjunto de fatores tem despertado, sobretudo entre os jovens, uma redescoberta do artesanato, ressignificando o trabalho, que vem deixando, aos poucos, de ser obsessão pelo sucesso para transformar-se em ritual de autodescoberta.

Esse movimento tem produzido bens que, além do seu valor material, carregam histórias: de conexão, de afeto, de encontro. Essas histórias são o caminho para uma espécie de empatia universal. Através delas, conseguimos perceber a dor que causamos ao planeta, além de vislumbrar futuros possíveis e alternativos.

A Âme ainda está em fase de gestação, definindo quais serão seus produtos e, sobretudo, quais serão seus valores. Junto com pesquisas de viabilidade (econômica e ambiental), Isadora tem investido parte de seu tempo preparando oficinas para a comunidade local (Leste/Sul de Florianópolis – SC), compartilhando processos e aprendizados. Sua atenção não está no registro de patentes, mas na exponecialidade da solução para o problema que quer ajudar a resolver. E isso é algo para se admirar.

Carol Moreira e Isadora Rubin, sócias no sonho da Âme de produzir, disseminar e discutir o uso de corantes naturais. Foto: Cris Fontinha.Recentemente Isadora juntou-se com Carol Moreira (fundadora do Ateliê Materno) para ajudá-la a tirar a Âme do papel. Vocês podem acompanhar um pouco do que elas já estão aprontando pelo Instagram @amecoresbotanicas.

Talvez o grande desafio delas seja encontrar um ponto comum entre a educação e o consumo, entre o compartilhamento de soluções sustentáveis e o acesso aos produtos que colocarem no mercado. Afinal, como foi dito na primeira edição de “Presente para o futuro”, nossa relação com a transformação positiva do mundo deve estar, também, permeada por um ideal de igualdade na diversidade, de compartilhamento horizontal das experiências, de um consumo consciente e democrático.

Sonhemos com elas: por um mundo mais colorido, mais diverso, com cores naturais e pessoas cada vez mais conscientes.

 

Receita de tingimento com repolho roxo

 

Isadora Rubin tingindo tecido com corante natural de repolho roxo. Foto: Cris Fontinha.Se você se sentiu tentada(o) a testar, veja o passo-a-passo de uma experiência com repolho roxo feita pela Isadora especialmente para o Canal AMa.

Essa é uma experiência de tingimento com um corante natural que muda de cor dependendo do pH da água. O ideal é utilizar uma água destilada, pois possui pH neutro, definido como 7.0.

 

Insumos:
• Três pedaços de tecido de seda pura, lavados com sabão neutro;
• Mordente, uma substância solúvel em água quente, capaz de ligar as fibras ao corante e fazer a sua fixação;
• Alúmen de potássio (pedra ume – sal metálico rico em alumínio, amplamente encontrado na natureza) na quantidade de 1/4 em relação ao peso do tecido.

Processo:
• Leve os tecidos a uma panela de inox com água quente e o mordente já misturado e deixe aquecer a 60° por uma hora;
• Enquanto isso, corte o repolho e faça o cozimento dessa matéria numa panela de inox com água por 30 minutos;
• Coe o material residual e reserve o corante;
• Divida o corante em três recipientes de inox diferentes. No primeiro, coloque um pedaço de seda e deixe cozinhar sem ferver por uma hora. No segundo, acrescente uma colher de bicarbonato de sódio, tornando o pH alcalino, para depois depositar o tecido e aquecer também por uma hora. No terceiro, acrescente uma colher de acido acético (vinagre) ou limão, tornando o ambiente ácido, mergulhe o tecido e cozinhe por uma hora.

O resultado é incrível! O tingimento com o repolho roxo no seu pH neutro resultará num tom roxo. Num ambiente alcalino, azul esverdeado. E, em um meio ácido, rosa escuro.

 

Oficina de tingimentos naturais

 

Você pode se inscrever na próxima oficina de tingimento com resíduos.

Proposta:

Um dia de reconexão com a alma e a natureza, dedicado a práticas de autocuidado, alimentação natural e consciente, técnicas manuais sustentáveis e reaproveitamento de resíduos.

Atividades:
• Conversa sobre cor e alma com a empreendedora Isadora Rubim e a culinarista Bruna Hey;
• Oficina de tingimento natural com resíduos vegetais com Âme Cores Botânicas;
• Café da manhã e almoço conscientes e criativos elaborados pela culinarista Bruna Hey;
• Mesa viva preparada pelo Atelie Susie Hahn;
• Meditação.

A data é 18 de agosto, na Casa Solar Iyengar Yoga, no bairro Campeche, em Florianópolis. Para maiores informações, envie uma mensagem para isadora.amecoresbotanicas@gmail.com.

 

Fotos: Cris Fontinha

Marcelo Téo
marcelo@retrato.site
1 Comentário
  • IVANILDA MOREIRA SERAFIM
    Postado às: 15:37h, 15 agosto Responder

    Parabéns pelas informações. Nunca imaginei coloração natural a base de repolho e outros.

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